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quinta-feira, 18 de março de 2010

MATERIAIS (de Liturgia da Matéria)




A utilidade da pedra:
fazer um muro ao redor
do que não dá para amar
nem destruir.

A utilidade do gelo:
apaga tudo que arde
ou pelo menos disfarça.

A utilidade do tempo:
o silêncio.

Paulo Henriques Britto

domingo, 14 de março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre a conversa




Então um erudito disse, Fala-nos da Conversa.

E ele respondeu, dizendo:

Vós falais quando deixais de estar em paz com os vossos pensamentos, e
quando já não conseguis lidar com a solidão do vosso coração, viveis com os
lábios e o som é uma diversão e um passatempo.

E, em muita da vossa conversa, o pensamento fica amordaçado.

Pois o pensamento é um pássaro do espaço que numa gaiola de palavras pode
abrir as asas mas não pode voar.

Há muitos de entre vós que procurais a conversa com medo de estardes
sozinhos.

O silêncio da solidão revela aos vossos olhos os vossos eus despidos e eles
querem escapar.

E há aqueles que falam, e sem conhecimento ou premeditação revelam uma
verdade que nem eles próprios entendem.

E há aqueles que têm a verdade dentro de si, mas não a dizem por palavras.

Khalil Gibran,in O Profeta

terça-feira, 9 de março de 2010

do silêncio




"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso."

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Não toques nos objectos imediatos


Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
Tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.

Herberto Helder

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Uma Paixão



Visita-me enquanto não envelheço

toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me

com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas

e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces

as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo

subindo à boca sulfurosa dos espelhos

vem

antes que desperte em mim o grito

de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão

derrama-se quando tua ausência se prende às veias

prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens

estas feridas de barro e quartzo

os olhos escancarados para a infindável água

vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite

sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te


Al Berto

je t'aime tout court

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Teatro Anatómico



O certo é que a realidade real
difere da realidade pensada.
Os homens não esperam mesmo nada.
Eu é que espero, e esse é todo o mal.

Agravo a dor do mundo imaginando-a;
coro de sangue e febre os olhos distraídos;
construo a voz amarga, implico-a de sentidos,
pisando-a, triturando-a, macerando-a.

O Mundo é corpo. É um corpo sem forma nem limites.
É como corpo, nele,
uns são carne, outros pele,
outros ventre, repleto de apetites,
outros sexo, outros boca, outros retina,
outros músculo tenso e força bruta.
Cada um seu sistema determina.
Cada qual a seu modo se executa.

Mas se um homem ferve
na água em que eu fervo,
coitado, só serve
para fio de nervo.


António Gedeão

Nota- Poema declamado por mim no Filo Café Descoberta/Invenção, sábado, dia 16 fotos aqui

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

As portas sobre o mar



São exactamente as portas sobre o mar que se abrem com palavras, disse algures Rafael Alberti.

A Tela é de Mela Villalta


Ao lado do homem vou crescendo


Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida.

Alexandre O'Neill, in

No Reino da Dinamarca

Tela de Paula Rego