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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Teatro Anatómico



O certo é que a realidade real
difere da realidade pensada.
Os homens não esperam mesmo nada.
Eu é que espero, e esse é todo o mal.

Agravo a dor do mundo imaginando-a;
coro de sangue e febre os olhos distraídos;
construo a voz amarga, implico-a de sentidos,
pisando-a, triturando-a, macerando-a.

O Mundo é corpo. É um corpo sem forma nem limites.
É como corpo, nele,
uns são carne, outros pele,
outros ventre, repleto de apetites,
outros sexo, outros boca, outros retina,
outros músculo tenso e força bruta.
Cada um seu sistema determina.
Cada qual a seu modo se executa.

Mas se um homem ferve
na água em que eu fervo,
coitado, só serve
para fio de nervo.


António Gedeão

Nota- Poema declamado por mim no Filo Café Descoberta/Invenção, sábado, dia 16 fotos aqui

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

As portas sobre o mar



São exactamente as portas sobre o mar que se abrem com palavras, disse algures Rafael Alberti.

A Tela é de Mela Villalta


Ao lado do homem vou crescendo


Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
De novos sonhos a vida.

Alexandre O'Neill, in

No Reino da Dinamarca

Tela de Paula Rego

sábado, 26 de dezembro de 2009

É Natal




É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia

Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

É PARA LÁ QUE EU VOU



Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.

Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.

Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.

Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.

Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.

É para o meu pobre nome que vou.

E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.

À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.

Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.

Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.

Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.

Clarice Lispector, in "Onde Estivestes de Noite" - 7ª edição - R. Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1994.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

AS INCLINAÇÕES RECÍPROCAS


Quando os peixes começam a ganhar raízes no fundo do mar,
os pescadores mergulham num tão longo desespero
que desatam a escrever-lhes poemas de amor,
que lançam até dois mil metros de profundidade,
em papelinhos verdes presos aos anzóis.

Os peixes, porém, cansados de tanto lixo,
devolvem os papéis e as palavras,
aproveitando apenas os anzóis
para erguer os seus muros de arame farpado.

Haukur Haraldsdóttir

(1867-1906 – Islândia)
Jornal de Notícias, 17 de Novembro de 1937

Tradução de Cristovão Meireles

domingo, 6 de dezembro de 2009

As Passagens Secretas


" Le beau Monde", de Rene Maigritte

A navegabilidade é o ofício das mãos, embarcamos em ti,
germinas
e o mel progride pelas sombras do quarto, a roupa nua, o fogo
circular
que principia nas nucas –

argila, brisa, pálpebras que soluçam, cortam a neblina, gastam
a angústia até ao último centavo, a frescura dos lenços, o aroma
dos pássaros vermelhos, os pátios e as algas que nos pedem
auxílio desde a areia,

vê:

acenam-nos desesperadamente com refúgios.

Corremos pela praia com a nossa nudez porque deixamos algures
os mantimentos escassos de que a nossa tristeza se mantém.

Corremos pela praia e as mãos deslizam para um cobertor lavado
pelo mar,
o oiro magnífico, a distância
mais curta entre dois pontos. É noite,

e corremos porque o tacto é uma promessa, casam-se os búzios,
conchas
azuis habitam o olhar, barcos,

homens que bebem a água como se fosse terra, pequeninas
sementes,
dissumulam a sede a que deus nos condena.

A respiração avança através de um gladíolo, as mãos
encrespam-se de silêncio, minerais dolorosos asfixiam a noite,
riscam
como se fossem fósforos as sardas do teu rosto. Vens

com os dentes branquíssimos, o peito aberto aos ninhos, barco
que balouça na névoa, é tecto, casa, cama. Dar-te-ia

a cereja do bolo, a serenidade do mar, uma praia de colmo,

se os dias não fossem transitivos e os objectos íntimos, ó ave,
insuportáveis.

Setembro principia com cúmulos no céu, jogos de água,
o inquietante
desenho de uma víbora projectado no chão. Respondes

com perguntas às perguntas que faço, reacendes a sede, fumas
nervosamente.
A esperança é um ídolo, somos imolados, a espessura do sangue
acaba por dizer-nos que é demasiado. Que cães

estabelecem contra nós a aliança feroz que nos persegue?
Que estrela risca
os limites possíveis dos nossos pés precários? Que cortejo
é este?

Ainda que a preservação seja um estímulo, e chova, confessamos
ou não

que temos medo?

Amadeu Batista, in " As Passagens Secretas"

sábado, 5 de dezembro de 2009

A bela de Amherst


A Morte varrendo
Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.

Emily Dickinson ((1830-1886)

Tradução: Aíla de Oliveira Gomes
Tela: Morte Varrendo( nao sei o autor)