" Le beau Monde", de Rene Maigritte
A navegabilidade é o ofício das mãos, embarcamos em ti,
germinas
e o mel progride pelas sombras do quarto, a roupa nua, o fogo
circular
que principia nas nucas –
argila, brisa, pálpebras que soluçam, cortam a neblina, gastam
a angústia até ao último centavo, a frescura dos lenços, o aroma
dos pássaros vermelhos, os pátios e as algas que nos pedem
auxílio desde a areia,
vê:
acenam-nos desesperadamente com refúgios.
Corremos pela praia com a nossa nudez porque deixamos algures
os mantimentos escassos de que a nossa tristeza se mantém.
Corremos pela praia e as mãos deslizam para um cobertor lavado
pelo mar,
o oiro magnífico, a distância
mais curta entre dois pontos. É noite,
e corremos porque o tacto é uma promessa, casam-se os búzios,
conchas
azuis habitam o olhar, barcos,
homens que bebem a água como se fosse terra, pequeninas
sementes,
dissumulam a sede a que deus nos condena.
A respiração avança através de um gladíolo, as mãos
encrespam-se de silêncio, minerais dolorosos asfixiam a noite,
riscam
como se fossem fósforos as sardas do teu rosto. Vens
com os dentes branquíssimos, o peito aberto aos ninhos, barco
que balouça na névoa, é tecto, casa, cama. Dar-te-ia
a cereja do bolo, a serenidade do mar, uma praia de colmo,
se os dias não fossem transitivos e os objectos íntimos, ó ave,
insuportáveis.
Setembro principia com cúmulos no céu, jogos de água,
o inquietante
desenho de uma víbora projectado no chão. Respondes
com perguntas às perguntas que faço, reacendes a sede, fumas
nervosamente.
A esperança é um ídolo, somos imolados, a espessura do sangue
acaba por dizer-nos que é demasiado. Que cães
estabelecem contra nós a aliança feroz que nos persegue?
Que estrela risca
os limites possíveis dos nossos pés precários? Que cortejo
é este?
Ainda que a preservação seja um estímulo, e chova, confessamos
ou não
que temos medo?
Amadeu Batista, in " As Passagens Secretas"



