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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Para a Fugi e para o Mike




Querido Helano,

Hoje eu comprei sementes de girassol. Há isso de extraordinário no mundo. Quando alguém se sente só ou com saudade de outrém pode comprar sementes de girassol para vê-lo crescer. Pode até fazer uma sementeira de tulipas. Neste caso, é preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos, deixando cair uma ou duas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas, máquinas, tratores ou edifícios, deixo aos outros, cuidarem. Também elas precisam de carícias: não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado? Não vê a máquina acarinhando a outra com a lixa? Há muitas formas de cuidar. E, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se me ocupo da semente é porque escuto o seu silêncio. O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o seu grãozinho de terra.


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

NA CONCHA DE UMA PÉTALA VERMELHA



Na concha de uma pétala vermelha

de uma rosa que o sol abandonara,

eu vi agonizar uma áurea abelha,

por uma tarde castamente clara.


O sol deu-lhe a penúltima centelha...

E ela só morre ao luar que a noite aclara.

Outra abelha, que à morta se assemelha,

vem: vai-se, como a outra se finara.


Essas abelhas são as nossas almas,

que viveram em derredor das palmas

das ilusões que vês e que ainda vejo


Hoje os raios do sol não a socorrem...

mas veio o luar, que é a benção dos que morrem,

para ungi-las no derradeiro beijo.


Alphonsus de Guimaraens

quadrado




Deixai-me com a sombra
Pensada na parede
Deixai-me com a luz
Medida no meu ombro

Em frente do quadrado

Nocturno da janela

Sophia Mello Breyner, in A Noite e a Casa