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sexta-feira, 31 de julho de 2009

CURSO DE ESCUTATÓRIA


“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado
curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém
vai se matricular.

...Escutar é complicado e sutil, diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que ‘não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”.

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para ver, é preciso
que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
- Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito, é preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil
de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos
estimulado pela revolução de 64.

Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os
participantes, ninguém fala. Há um longo silêncio. Todos em silêncio, à
espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro
falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso
tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, {...}. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.
Na nossa civilização, se eu falar logo e logo a seguir fico em silêncio, são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza”.
Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu
pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.

Falo como se você não tivesse falado.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo àquilo que você falou”. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar- quem faz mergulho sabe- a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves
(site do autor na barra lateral)

nomes



Escrevi o teu nome na linha-férrea,
para que o pudesses ler.
Mas tu passaste a cem à hora
e sem tempo para o ver.
Fiz outra tentativa
e escrevi no alcatrão.
Mas nessa tosca avenida,
não passa o teu avião.

Tens um nome delicado,
não se pode escrever.
É preciso entrar em ti
para te poder conhecer.
Não é nome que se diga,
não é nome de mulher.
É da cor do teu vestido,
é do teu jeito de ser.

Em poucos dias toda a cidade,
estava pintada de Rosa.
E por todos os lugares,
lia-se o teu nome em prosa.
Mas de ti nem um sinal,
nem sequer uma notícia.
A tua ausência prolongada
era já caso de polícia.

Tens um nome delicado,
não se pode escrever.
É preciso entrar em ti
para te poder conhecer.
Não é nome que se diga,
não é nome de mulher.
É da cor do teu vestido,
é do teu jeito de ser.

Tentei só mais uma vez,
escrever-te na terra molhada.
E da noite para o dia,
eras uma semente germinada.

Tens um nome delicado,
não se pode escrever.
É preciso entrar em ti
para te poder conhecer.
Não é nome que se diga,
não é nome de mulher.
É da cor do teu vestido,
é do teu jeito de ser.

Tens um nome delicado,
não se pode escrever.
É preciso entrar em ti
para te poder conhecer.
Não é nome que se diga,
não é nome de mulher.
É da cor do teu vestido,
é do teu...

Tens um nome delicado,
não se pode escrever.
É preciso entrar em ti
para te poder conhecer.
Não é nome que se diga,
não é nome de mulher.
É da cor do teu vestido,
é do teu jeito de ser.

Provérbio Alemão :-)



Tudo tem um fim, só a salsicha tem dois.


(Provérbio Alemão)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Cantinas



Para onde foi a ternura, perguntou ele ao espelho
Do Hotel Biltmore, quarto 216. Ah,
Poderá o seu reflexo, ali encostado ao vidro,
Perguntar também para onde fui, para que horror?
É esse reflexo o que agora me contempla com terror
Atrás da tua frágil barreira inclinada? A ternura
Estava aqui, neste mesmo aposento, neste
Lugar, com a sua forma vista, com os seus gritos escutados por ti.
Que erro

Há aqui? Sou essa imagem fendida, precipitada?
É o fantasma do amor aquilo que reflectias?
Agora com um fundo de tequila, beatas, colarinhos sujos,
Perborato de sódio, um rascunho
Para os mortos, um telefone desligado?
... Estilhaçou todos os vidros do quarto. (Conta: $ 50.)

Malcolm Lowry
Cantinas* - Tradução de José Agostinho Baptista
Telhados de Vidro

facebook e outras coisas...

Estou a receber comentários de Anónimos não recomendáveis. Para evirtar isso, decidi tirar a opção de comentáros para Anónimos. Quem comentar terá que possuir Open ID ou um perfil de Blogger, que é extremamente fácil de abrir, mesmo para quem não tenha blogue.

É só por uns tempos :-))

Quem estiver ligado ao Facebook, comunico que tambem poderá encontrar-me por lá.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sábado à tarde



Perdia meia hora,
Parado em frente ao espelho,
Mudava de camisa

Vestia-me outra vez.
Fechava a porta à chave

Acendia um cigarro.
E ensaiando os gestos

Passava já das 3,
Vestia o meu casaco, corria sem parar
E à porta do cinema, morria de pensar,
Que talvez não viesses,
Não pudesses entrar
Num filme para adultos...até te ver chegar.

Perdia meia hora, num gesto do meu braço
A procurar coragem
Para que fosse abraço.
Chegava o intervalo

Fumava sem prazer
E os gestos que ensaiara, morriam ao nascer
Por fim vencia o medo, quase sem te ver,
Esquecia os meus dedos

Cansados de tremer
Por sobre o teu joelho
Esperando a tua mão
Num filme para adultos
Crescíamos então (um beijo de paixão).

Sábado à tarde no cinema da avenida,

Mal as luzes se apagavam
Acendia o coração

Sábado à tarde

Era uma noite bonita
Noite que sendo infinita
Cabia na nossa mão


Paulo de Carvalho