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quarta-feira, 15 de julho de 2009

O quarto do suicida



Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta — um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos.

E não era sem saída este quarto,
ao menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo — ou seja, ainda viva.

Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma —
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.

Wislawa Szymborska
Tradução: Ana Cristina César
Tela: La chambre, de Balthus

Retrato




A pele era o que de mais
solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está senão
um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água
ele procurara protecção.


Luís Miguel Perry Nava

Tela de Alba Farto

Interrogações


Jorge de Sena:Como de Súbito na Vida

Nenhuma pergunta demanda resposta.

Cada verso é uma pergunta do poeta.

E as estrelas...

as flores...

o mundo...

são perguntas de Deus.


Mário Quintana

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

le temps des fleurs

Carmen Nuevo




Hoje a cerejeira floresceu. Floresceu, talvez porque Newton o disse, porque tu o disseste,

...os corpos continuam, continuam sempre

Embora seja tarde para dizer a luz inunda a velha chaminé, no meu coração ressoam objectos estranhos como esquadrias de musica
Hoje a cerejeira floresceu. Embora seja tarde para dizer.

...Os corpos...

Carmen Nuevo, in" Do Enxoval, A Loucura"
Edições Tema, 2003

sábado, 11 de julho de 2009

"procura-se"




"cavalheiro com mais de quarenta anos, culto, educado, honesto, sem neuroses graves, casa pronta a usar, frigorífico, cão, fogão, lava-loiça , cama XLLLL e alguns filhos, procura senhora que pese mais de 80 kilos, apessoada, alegre e que goste de mar"

- está aqui a minha chance, diz a lectrice de joanne von zwehl

terça-feira, 7 de julho de 2009

pouco depressa


falo-te de chuva
como quem diz que as minhas mãos
não se exaltam em revisitar-te o peito

revejo todos os verdes
no peppermint do meu cálice
enquanto a janela abro
pouco depressa
sobre a tarde

falo-te de cansaço
como quem se sentasse
numa poltrona de lã

Daniel Maia-Pinto Rodrigues
mais do autor aqui

Tela:"To Remember" de Bogdan Zwir

sexta-feira, 3 de julho de 2009

4.48 Psychosis




"nunca compreendi
aquilo que é não é para eu sentir
como um pássaro a voar num céu inchado
a minha mente é rasgada por um relâmpago quando voa do trovão atrás"

Sarah Kane

"4.48 Psychosis"


um filme a preto e branco de sim ou não sim ou não sim ou não sim ou não sim ou não sim ou não

Sempre te amei
mesmo quando te odiei
Como é que eu sou?
como o meu pai


oh não oh não oh não

Portinhola abre

Luz decidida

A ruptura começa


Sasah Kane, in "4.48 Psychosis"