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terça-feira, 16 de junho de 2009

equilibrio


"Expor uma menina a fazer equílibrio nas alturas, quando a menina
é circense não é perigoso.
Expor a menina à desilusão quando a menina é menina pode sê-lo.


(.........................)"

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Silvia Zayas, excerto do poema "equilibrio"
in "amalaya", Edições Tema



Amélia dos olhos doces



Amélia dos olhos doces,
Quem é que te trouxe grávida de esperança?
Um gosto de flor na boca,
Na pele e na roupa, perfumes de França.

Cabelos cor-de-viúva,
Cabelos de chuva, sapatos de tiras,
E pois, quantas vezes,
Não queres e não amas
Os homens que dormem,
Os homens que dormem contigo na cama.

Amélia dos olhos doces,
Quem dera que fosses apenas mulher.
Amélia dos olhos doces,
Se ao menos tivesses direito a viver.

Cabelos cor-de-viúva,
Cabelos de chuva, sapatos de tiras,
E pois, quantas vezes,
Não queres e não amas
Os homens que dormem,
Os homens que dormem contigo na cama.

Amélia gaivota, amante, poeta,
Rosa de café.
Amélia gaiata, do bairro da lata,
Do Cais do Sodré.

Tens um nome de navio,
Teu corpo é um rio onde a sede corre.
Olhos doces, quem diria,
Que o amor nascia onde Amélia morre.

Cabelos cor-de-viúva,
Cabelos de chuva, sapatos de tiras,
E pois, quantas vezes,
Não queres e não amas
Os homens que dormem,
Os homens que dormem contigo na cama.

Amélia dos olhos doces...

Letra: Joaquim Pessoa
Voz: Carlos Mendes

domingo, 7 de junho de 2009

What is that?



Pai e filho estão sentados num banco. De repente aparece um pardal.

Obrigada ao José que mo enviou!


uma árvore!!

não sei o que esta árvore esgalhada e seca sentiu quando estas aves poisaram nos seus ramos. sei que hoje me senti árvore.
numa esplanada, eu lendo, levanto os olhos e vejo que um bando de pardais, julgo que eram pardais, me rodeava. no inicio poisando na mesa, rondando-me os meus pés, para depois se aproximarem, cada vez mais, devgarinho mas sem medo. nas mesas vizinhas, atentas,as pessoas sorriam. tão bon
ito! foi então que lembrei
"dos fundamentos dos pássaros" .

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A Arte para as crianças


Ela estava sentada numa cadeira alta, na frente de um prato de sopa que chegava à altura de seus olhos. Tinha o nariz enrugado e os dentes apertados e os braços cruzados. A mãe pediu ajuda:
— Conta uma história para ela, Onélio — . Pediu — Conta, você que é escritor...
E Onélio Jorge Cardoso, esgrimindo a colher de sopa, fez seu conto:
— Era uma vez um passarinho que não queria comer a comidinha. O passarinho tinha o biquinho fechadinho, fechadinho, e a mamãezinha dizia:
"Você vai ficar aviãozinho, passarinho, se não comer a comidinha". Mas o passarinho não ouvia a mamãezinha e não abria o biquinho...

E então a menina interrompeu:
— Que passarinho de merdinha — opinou.

Eduardo Galeano, in O livro dos Abraços

terça-feira, 2 de junho de 2009

da linguagem dos deuses


B. (do Coro da esquerda ) (distraidamente)
- Não, não acreditei.
.
(Pausa)
.
C. (do Coro da direita)
- Porque não acredidaste?
.
B . (do Coro da direita)
- Os deuses são muitos e cada um tem a sua linguagem e essa linguagem é sempre doce porque senão não seriam deuses. Cada vez que ouvimos um falar pensamos que é ele o único e que o mundo que ele dá é que é o vero mundo. Ouvimos outro e julgamos dele hoje o que do primeiro julgávamos ontem. Cada um é a verdade só enquanto nos fala. Como somos crianças não sabemos nada, vivemos dos contos que nos contam e o conto que é contado enquanto o contam é o único conto que alguma vez foi verdade no mundo. Já eu ouvira outros deuses e porventura mais ainda ouvirei. O último será sempre o primeiro mas, no fundo de mim serei sempre o que ignora e arrasta um corpo atrás de si debaixo do sossego das estrelas.*
***
Fernando Pessoa, in "O Privilégio dos Caminhos, pág. 85

* epígrafe deste blog