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terça-feira, 31 de março de 2009

"O que é a Verdade?"


"Um dia, a Verdade decidiu visitar os homens, sem roupas e sem adornos, tão nua como o seu próprio nome. Só que todos os que a viam lhe viravam as costas de vergonha ou de medo, e ninguém lhe dava as boas-vindas. Assim, a Verdade percorria os confins da Terra, criticada, rejeitada e desprezada. Uma tarde, muito desconsolada e triste, encontrou a Parábola, que passeava alegremente, trajando um belo vestido muito elegante.
— Verdade, por que estás tão abatida? — perguntou a Parábola.
— Porque devo ser muito feia e antipática, já que os homens me evitam tanto! — respondeu a amargurada Verdade.
— Que disparate! Não é por isso que os homens te evitam. Toma. Veste algumas das minhas roupas e vê o que acontece. — sorriu a Parábola.
Então, a Verdade vestiu algumas das lindas vestes da Parábola, e, de repente, por toda parte onde passava era bem-vinda e festejada.
*
Os seres humanos não gostam de encarar a Verdade sem adornos. Eles preferem-na disfarçada. ". ( texto adaptado por mim "A Parábola e a Verdade, conto judaico)
***
Dedico com carinho este postal ao Joaquim do blog "O que é a verdade" que festeja hoje três anos, com o privilégio que é acompanhar o seu caminho.

Imagem: estátua que dispensa apresentações, roubada à Cristina daqui, onde constam as explicações.

segunda-feira, 30 de março de 2009

POST DA SEMANA ("reforma ortográfica")

REFORMA ORTOGRÁFICA

Estranho escrever joia sem acento.
É como se não brilhasse mais.

por Edison Veiga no seu Cronopolitano

starry, starry night



porque hoje faz anos que nasceu Van Gogh.
a musica de Don McLean em homenagem a ele.
eu dedico este post a todos os doentes bipolares.

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Starry, starry night.
Paint your palette blue and grey,
Look out on a summer's day,
With eyes that know the darkness in my soul.
Shadows on the hills,
Sketch the trees and the daffodils,
Catch the breeze and the winter chills,
In colors on the snowy linen land.

Now I understand what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they did not know how.
Perhaps they'll listen now.

Starry, starry night.
Flaming flowers that brightly blaze,
Swirling clouds in violet haze,
Reflect in Vincent's eyes of china blue.
Colors changing hue, morning field of amber grain,
Weathered faces lined in pain,
Are soothed beneath the artist's loving hand.

Now I understand what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they did not know how.
Perhaps they'll listen now.

For they could not love you,
But still your love was true.
And when no hope was left in sight
On that starry, starry night,
You took your life, as lovers often do.
But I could have told you, Vincent,
This world was never meant for one
As beautiful as you.

Starry, starry night.
Portraits hung in empty halls,
Frameless head on nameless walls,
With eyes that watch the world and can't forget.
Like the strangers that you've met,
The ragged men in the ragged clothes,
The silver thorn of bloody rose,
Lie crushed and broken on the virgin snow.

Now I think I know what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they're not listening still.
Perhaps they never will...

Coco

sábado, 28 de março de 2009

Madrigais Privados

Amendoeiras em flor, Março ,2003 (proibida a reprodução)
Onde foi tirada esta foto? Que caminhos eram estes?

MADRIGAIS PRIVADOS

Deste meu nome a uma árvore? Não é pouca coisa;
embora não me resigne a ficar apenas sombra, ou tronco,
abandonado num subúrbio. Eu o teu
dei a um rio, a um longo incêndio, à minha sorte
cruel, à confiança
sobre-humana com que falaste ao sapo
que saiu do esgoto, sem horror ou pena
ou exaltação, ao alento daquele poderoso
e suave lábio teu que consegue,
nomeando, criar: sapo flores relva rocha —
carvalho pronto a desfraldar-se sobre nós
quando a chuva dispersa o pólen das carnosas
pétalas de trevo e a chama se levanta.
Eugenio Montale
(trad. Geraldo H. Cavalcanti)

sexta-feira, 27 de março de 2009

o meu sonho

Lucille Ball e o vaso

um dia conseguir fazer isto

Eugenio Montale

Levarás contigo meu último sopro
de poesia; depois uma nuvem carregada
de presságios funestos escurecerá
a luz que nos foi concedida.
Não foste um simples fulgor,
chegaste inesperada, voz de salvação.
Um som límpido os cristais
emitem quando o vento
os afloram, claridade
fá-los esplender como incandescentes
arco-íris, que iluminam em derredor.
Ao redor o mundo descolora.

***
Vale a pena ler o original

Porterai com te l'ultima ventata
di poesia; poi una nube gonfia
di presagi funesti oscurerà
la luce che ci fu concessa.
Non fosti un semplice bagliore,
giungesti inaspettata, voce di salvazione.
Un suono limpido emettono
i cristalli quando il vento
li sfiora, il chiarore li fa splendere
come incandescenti arcobaleni
che illuminano d'attorno.
Intorno il mondo scolora.
***
Eugenio Montale, poema nº 65
Trad. de Ivo Barroso
(1896-1981)
Prémio Nobel de Literatura de 1975

quarta-feira, 25 de março de 2009

POEMA DO FALSO AMOR




O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!

Dante de Milano

(1899-1991)

NOTA - Não percam o video em cima,"Os pássaros de Messiaen"Aqui e no Porto Croft

quinta-feira, 19 de março de 2009

em defesa do arcebispo

DIRIJO-ME A V. REVMA., dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, para, "in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti", louvar o seu destemor e coerência ao proclamar a verdade revelada e guardada através dos séculos pela Igreja Católica Romana.


Em oposição àqueles que não foram iluminados pela revelação divina e que se apressaram a atacá-lo com argumentos da efêmera sabedoria humana, V. Revma. pensou e agiu de forma milenar, com base na rocha imutável sobre a qual a igreja foi construída.


Nessa circunstância, o senhor aparece como o legítimo representante da igreja e as suas palavras soam como um coral gregoriano, eternas e sempre as mesmas, à semelhança da monotonia da música das esferas celestes. Não são palavras de um indivíduo. É a igreja que fala por meio da sua boca. E esta é a razão por que o Vaticano confirmou os seus atos.

O que aconteceu? Uma menina de nove anos vinha sendo abusada sexualmente pelo seu padrasto desde os seis anos de idade. Ficou grávida de gêmeos. Levada aos médicos, eles concluíram que um aborto se fazia necessário porque a vida da menina estava em jogo. Assim afirma a ética médica: estando em jogo a vida de um feto e a vida da futura mãe, a vida da mãe tem a prioridade. É preciso que a vida da mãe seja salva.
Informado do acontecido. V. Revma. tomou as providências exigidas pelas leis da igreja -que afirmam o contrário: a vida do feto, por diminuto e ínfimo que seja, tem sempre prioridade sobre a vida da mãe, por mais filhos que ficariam órfãos no caso da sua morte. Assim, V. Revma foi fiel à igreja: excomungou a mãe da menina por ter permitido e a equipe médica por haver realizado o aborto.

Aqueles que não conhecem a verdade revelada se espantaram com fato de que o estuprador padrasto tenha ficado fora da maldição da excomunhão. Mas V. Revma. explicou que o estupro não é punido com a excomunhão porque, por violento e cruel que possa ser, ele não tira uma vida. Pode mesmo acontecer que do estupro até surja uma nova vida...

Os médicos se surpreenderam com a excomunhão lembrando que as leis do país foram obedecidas. V.Revma. refutou: "A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Quando uma lei humana (...) é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor". Em outras palavras: as leis do Estado só devem ser obedecidas quando concordam com as leis da igreja.

Em outros tempos o senhor poderia ser acusado de estar incitando à desobediência civil, à subversão, porque a ética que se encontra por detrás dos atos subversivos vem da crença na ilegalidade e, portanto, na ilegitimidade do Estado.

O senhor concordará que há um conflito entre a pretensão da igreja de ter o monopólio total da verdade e a democracia? Pois na democracia são os homens e não Deus que estabelecem as leis. O sonho político da igreja não é uma teocracia em que as leis são estabelecidas por ela e o Estado secular leigo é abolido? A igreja não sonha com a sua volta ao poder e a abolição da democracia?

Tremo pensando no futuro eterno que aguarda os excomungados. A eles está proibida a participação na eucaristia, veículo da graça. Estão, assim, condenados ao Inferno eternamente.

Mas isso, condenar uma pessoa eternamente a um Inferno de Fogo, não será mais cruel que um aborto?

Mas sinto que sua consciência está em paz. Não foi o senhor que excomungou. Foi a igreja.

Ruben Alves
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