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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

dos eruditos :-)

" Celine à la pomme" de Francine Van Hove

"Cuidado. Os eruditos enganam-se frequentemente e enganam os outros."


Goethe, Fausto.

guarda o que não presta...



encntrado num blog que não tem só boa poesia e que eu gosto revisitar.

Filo-Café, amanhã

- Código Penal -

As normas estão lá, perfeitas, sublimes na gélida vocação de uma certeza. São névoas em que as palavras têm a densidade de uma ética imaginária. Sílaba a sílaba, aprende-se que há gestos que ferem, matam, criam a desordem e traiem o silêncio. Ninguém o lê, a não ser por dever do ofício. E, no entanto, tem a textura de umapoesia absurda. Cada artigo parece um despropósito da evidência, soletrando o que é inabitável. Num texto sagrado, procura-se a esperança, a redenção, ou o discurso ancestral do medo. Aqui, aprende-se a hierarquia da pobreza. Aquele é um artefacto que conduz à ilusão. Este é uma realidade ponderada nas virtudes do prosaico. Ninguém pauta uma vida por um código. O que não é importante. As penas da lei não se confundem com as penas da alma. O crime é, antes de o ser, uma abstracção. Depois de o ser, é a desesperança para sempre instalada na memória.

(Floriano Cardoso)

Mais um Filo-Café, amanhã, no Orfeão do Porto. Informações aqui

cataz do Nelson Silva

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"O Poeta e a Lua"

Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pêlos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.

Vinicius de Morais
(in Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano")

A Lua, eterna musa inspiradora de poetas.

CONVERSA BEM BRASILEIRA


— Desculpe, minha senhora, mas não consigo lembrar-me se a conheço do ultimo carnaval, da ultima greve, ou da ultima enchente...
Mário Quintana

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

da transparência



Ausência, é esta transparência.
O tempo a tropeçar na janela
voando de telhado em telhado
de estrela em estrela.
A própria Noite.
.
Júlia Moura Lopes

domingo, 22 de fevereiro de 2009

les vieux



1
Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux,
Mme riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions, et n'ont qu'un
coeur pour deux.
Chez eux a sent le thym, le propre, la lavande, et le verbe d'antan,
Que l'on vive Paris, on vit tous en province quand on vit trop longtemps.
Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lzarde quand ils parlent d'hier ?
Et d'avoir trop pleurer que des larmes encore leur perlent les paupires ?
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui, qui dit non, qui dit : "Je vous attends".

2
Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont
fermés,
Le petit chat est mort. Le muscat du dimanche ne les fait plus chanter,
Les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est
trop petit,
Du lit la fentre, puis du lit au fauteuil, et puis du lit au lit,
Et s'ils sortent encore bras dessus, bras dessous, tout habills de raide,
C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement
d'une plus laide,
Et le temps d'un sanglot oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui, qui dit non, et puis qui les attend.

3
Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps,
Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre, et se perdent pourtant
Et l'autre reste l, le meilleur ou le pire, le doux ou le svre,
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer.
Vous le verrez peut-être, vous le verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le prsent. En s'excusant dj de n'être pas plus loin.
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui, qui dit non, qui leur dit : "Je t'attends",
Qui ronronne au salon, qui dit oui, qui dit non, et puis qui nous attend.

espelho

O JM Coutinho Ribeiro no Anónimo e aqui, o Mike também de uma outra forma ,no Desconversa pedem-me seis particularidades que eu vejo (digo?) todos os dias ao espelho. Repondo com este poema de Mário Quintana:



" Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...)
Parece meu velho pai - que já morreu! (...)
Nosso olhar duro interroga:
"O que fizeste de mim?" Eu pai?
Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga...
Que importa!
Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra,
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste... "


O meu pai faria anos ontem. Herdei dele toda a genuína espontaniedade infantil, o olhar triste, as malfadadas distrações, as sardas num nariz com a agravante de ser à boca-de-sino, esta boca cheia com o coração a sair de dentro dela, os pés pequenos e perfeitos, esta alegria infundada que vem do Além e este infinito amor pela Poesia.



Passo à Once, Sum, José Torres , Minucha e Cristina

Absolute Beginners



...ou a inteligência dos homens é dirigida?

sábado, 21 de fevereiro de 2009

CUÉNTAME COMO VIVES, CÓMO VAS MURIENDO


Cuéntame cómo vives;
dime sencillamente cómo pasan tus días,
tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
y las confusas olas que te llevan perdido
en la cambiante espuma de un blancor imprevisto.

Cuéntame cómo vives;
ven a mí, cara a cara;
dime tus mentiras (las mías son peores),
tus resentimientos (yo también los padezco),
y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

Cuéntame cómo mueres;
nada tuyo es secreto:
la náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
la locura imprevista de algún instante vivo;
la esperanza que ahonda tercamente el vacío.

Cuéntame cómo mueres;
cómo renuncias -sabio-,
cómo -frívolo- brillas de puro fugitivo,
cómo acabas en nada
y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.

Gabriel Celaya, in "Tranquilamente hablando"

***
Tela: "The Yellow Canary" de John Michael Carter
.

Publicado também no Porto Croft