"Cada um arrasta um corpo atrás de si, debaixo do sossego das estrelas" Fernando Pessoa
sábado, 8 de março de 2008
O Despertar / Alexandra Pizarnik

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios
Que farei com o medo
Que farei com o medo
Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver
Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue
É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada
Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada
Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi
Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?
Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?
O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual
Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde
Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue
Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças
Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo
***
EL DESPERTAR
Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y se ha volado
y mi corazón está loco
porque aúlla a la muerte
y sonríe detrás del viento
a mis delirios
Qué haré con el miedo
Qué haré con el miedo
Ya no baila la luz en mi sonrisa
ni las estaciones que man palomas en mis ideas
Mis manos se han desnudado
y se han ido donde la muerte
enseña a vivir a los muertos
Señor
El aire me castiga el ser
Detrás del aire hay monstruos
que beben de mi sangre
Es el desastre
Es la hora del vacío no vacío
Es el instante de poner cerrojo a los labios
oír a los condenados gritar
contemplar a cada uno de mis nombres
ahorcados en la nada
Señor
Tengo veinte años
También mis ojos tienen veinte años
y sin embargo no dicen nada
Señor
He consumado mi vida en un instante
La última inocencia estalló
Ahora es o nunca jamás o simplemente fue
¿Cómo no me suicido frente a un espejo
y desaparezco para reaparecer en el mar
donde un gran barco me esperaría
con las luces encendidas?
¿Cómo no me extraigo las venas
y hago con ellas una escala
para huir al otro lado de la noche?
El principio ha dado a luz el final
Todo continuará igual
Las sonrisas gastadas
El interés interesado
Las gesticulaciones que remedan amor
Todo continuará igual
Pero mis brazos insisten en abrazar al mundo
porque aún no les enseñaron
que ya es demasiado tarde
Señor
Arroja los féretros de mi sangre
Recuerdo mi niñez
cuando yo era una anciana
Las flores morían en mis manos
porque la danza salvaje de la alegría les destruía el corazón
Recuerdo las negras mañanas del sol
cuando era niña
es decir ayer
es decir hace siglos
Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y ha devorado mis esperanzas
Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
Qué haré con el miedo
Alejandra Pizarnik , De Las Aventuras Perdidas (1958)
terça-feira, 4 de março de 2008
A Morte de Assafora
***
No primeiro capítulo do livro "de Gabriela Llansol, "A morte de Assafora" , é revelado “o fim de que nasce um ser” , que dá lugar ao novo recomeço.
Para que o novo surja, é preciso “impelir para fora a folha caduca da casa” e desfazer-se da pele velha, como a serpente de que falava Nietszche.
Assim, abre a janela ao “desejo de ar livre”, lava a última roupa suja de Assafora, símbolo daquela casa, e a pôs a secar.
********
***
baseado no livro de Maria Gabriela Llansol,
" Um beijo dado mais tarde", in a Morte de Assafora, p. 10 a 14
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NOTA: ver homenagem a M.G. Llansol no PIANO
segunda-feira, 3 de março de 2008
Ana Drago: Avaliação não pode servir para combater o défice
Porque será que isto não passa nas TV's??
sábado, 1 de março de 2008
brechas
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"...trata-se
de um filme, as personagens abrem brechas no écran."
Arte de dois amigos:
**
*As Palavras são de Luis Miguel Perry Nava
**A Fotografia de José Bolt
Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das
horas. Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
Irene Lisboa
Nota : Dedico ao JAB que escreve tão bem e tem um blog dedicado a I.L. aqui
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