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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Da inteligência


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A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais pode parar por aqui!
Depois põe-te a viver sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
- põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois, põe-te a coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhos a cabeça por dentro
.....
co’as tuas unhas e cacos de garrafa,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa muito depressa
sem que o sol te veja
deitar tudo no mar onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti também!


(...................................)


Fragmento da Cena do Ódio de Almada Negreiros
*Auto retrato de Almada negreiros

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Livro das Ignorâças II

Molenaer - allégorie de la Vanité - 1633

II

Desinventar objetos.

O pente, por exemplo.

dar ao pente funções de não pentear. Até que

ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou

uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham

idioma.


(...)

Manoel de Barros, livro das ignorãças, didáctiva da invenção


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Livro das Ignorãças, I




I
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Para apalpar as intimidades do mundo é preciso
saber:


a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca


b) O modo como as violetas preparam o dia
para morrer


c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos


d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação


e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos


f) Como pegar na voz de um peixe


g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.


etc.etc.etc.


Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.


Manoel de Barros, fragmento do Livro das Ignorãças,



terça-feira, 26 de fevereiro de 2008



"Sou uma ceptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo, no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num Dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa."


- Carta de Florbela Espanca ao Dr. Guido Battelli de 27/7/1930

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

QUEM OUSARÁ PESAR A LÁGRIMA


Quem ousará pesar a lágrima
vermelha que Deus guarda
na sua mão direita?

Sem ela os olhos nada vêm
sem ela não se ouvem os corações
celestes
e o cérebro não se pensará
a ele mesmo.

Ela explica o mar as aves e as estrelas
e os navios que vão pelas orlas dos mantos dos santos.
Ela explica o nada e o infinito
e é nela que Deus sente
o seu próprio peso.

Por isso nem Ele a ousará pesar.
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Henrique Dória, no Odisseus
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imagem extraída do livro N-D de Paris de Vitor Hugo

Tens o ...

...monitor sujo, JG?
então
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Clica aqui

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Os melhores Caminhos

,,
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....este privilégio encontra-se no Roads e chegou pela mão do amigo JG,
"(...)as fotografias de um fotógrafo que dizem ser cego. (...)"
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008


SOPRO
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( A meu Pai, que faria hoje anos)
Paisagem de infância.
a margem, o rio,
onde o horizonte me convoca e foge.

tenho 12 anos, tenho um cow-boy
que vi no cinema cuidando do seu cavalo ferido
estranhamente parecido a meu pai.
ele penteava e revigorava os meus cabelos
que dançavam na praia deserta
entre eflúvios de ternura.

e cada gesto mimetizava o Sol.

um fio longo e liso do meu cabelo
captou o eco das dunas.
uma borboleta incandescente
perdida na vertigem, cruzou o meu sono.
vento, olhos, pedras e as nuvens
manifestaram a constância desse esplendor.

com um sopro dos deuses
tudo ficou calmo e azul.
o sangue, a história improvisam.

Tudo se refaz. Nunca tardo, pai.
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Julia Moura Lopes
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foto: Werner Bischof,UK. England. London.

carta de Clarice Lispector


Berna, 02 de janeiro de 1947.

Querida,


Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e de outras pessoas. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou a falta de caráter, um mês antes de irmos ao Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta, eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo o interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco a minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-me de coragem, como ela disse, e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinquenta anos. Tudo isso você não vai nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que faz um pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - esse é o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.




Tua Clarice."

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Chuvas

Algumas vezes existi.
Algumas vezes tomei chuva.
Mas quando tomei chuva eu me senti um átomo da água e ali
Fui rio, nuvem, relâmpago, açude, cisterna, foz e quase voei.
Porque tomar chuva é integrar-se à natureza, ser parte dela
Conjugar o verbo haver no sentido mais pleno de seu assento
Eu a chuva - e até algumas lágrimas de alegria, êxtase e contentamento
Como se a minha alma-árvore se lavasse por dentro...
E fui chuva e guri e mar e senti minha alma flutuar numa nuvem-nau
Porque eu era a maravilhosa Chuva naquele bendito magno momento
Então a chuva me reconhecendo como parte dela (que o meu espírito o é) Parou de ser peneiradinha naquele tardiscar cor de rosa-pitanga em Itararé
E o lírio-laranja do sol se abriu de novo e eu me vi ali
No fio-terra, o guri
Angelicalmente de alma lavada
Pronto para enfrentar a cara amarrada
Da vida distante que em busca de mim mesmo a peregrinar escolhi.

Silas Correa Leite
blog do autor "Porta Lapsos"
(gentilmente enviado pore email pelo poeta. Obrigada,amigo!)