"Cada um arrasta um corpo atrás de si, debaixo do sossego das estrelas" Fernando Pessoa
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
A Lua (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.
E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De... não sei se é desejar.
Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando
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Fernando Pessoa
domingo, 13 de janeiro de 2008
A Lua
"A realidade é invertida no reflexo.
A verdade, torna-se ilusão.
O que vês, é uma simulação da vida e não a própria vida.
De tanto sonhar, estás entorpecido.
Este mundo é a imaginação de Deus
e não existe senão dentro d'Ele.
Porque te preocupas e te deprimes?
Porque te afogas nas águas da emoção e da melancolia?
Consola-te e reage!
Afinal, nada disto está acontecendo.
Tu não és; eu não sou."
O que se vê:
- o tanque de água (matéria primordial)
- o caranguejo que emerge (devorador do transitório, como o escaravelho entre os egípcios)
- os cães que interceptam a passagem (guardiães, qualificadores da aptidão do viajante para enfrentar o mistério), as torres no horizonte (cheias de ciladas e também de portas – meta, fronteira).
Cirlot imagina que os cães impedem a passagem da Lua para o domínio do logos (conhecimento solar) e comenta a descrição de Wirth sobre
o que não se vê na gravura:
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“Atrás dessas torres há uma estepe e atrás um bosque (a floresta das lendas e contos folclóricos), cheio de fantasmas. Depois há uma montanha e um precipício que termina num curso de água purificadora. Essa rota parece corresponder à descrita pelos xamãs em suas viagens extáticas."
O que parece evidente é que o Arcano XVIII está mais relacionado que qualquer outro com o plano iniciático da via húmida (lunar). É por isto que Wirth o relaciona à intuição e ao imaginativo, ainda que entre suas interpretações mais recorrentes figure a sensualidade. A aproximação do Arcano XVIII com o vasto simbolismo lunar seria interminável, desde a sua relação com o ciclo fisiológico feminino até o panteão das divindades noturnas, passando por suas implicações cósmicas, mágicas e astrológicas.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Resposta a Carta Aberta
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Em resposta à Carta Aberta do amigo Paulo do Afinidades Efectivas e como prova irrefutável que a beleza deste David de Miguel Angelo não estraga a estética deste blog, muito pelo contrário.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
....Não, não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconsciente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.,,,,
(Clarisse Lispector, in Perto do Coração Selvagem, último parágrafo do livro)
sábado, 5 de janeiro de 2008

"Acordar de noite e lutar contra o mar. Impor, sobrepor, a minha voz à sua. Acima do seu canto o meu grito, mais alto que a sua música a minha raiva, o meu choro, a minha discordância. Atirar pedras, facas, contra o mar. Fechar contra ele todas as portas e janelas. Contra o seu infinito a minha finitude. Partir o mar como se fosse um espelho."
Teolinda Gersão, in "Paisagem com mulher e mar ao fundo", pág. 59
Teolinda Gersão, in "Paisagem com mulher e mar ao fundo", pág. 59
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
dos fundamentos dos pásssaros
O pássaro é denso mas crispado e tem angústias, medos. Aprendeu a sabedoria de pôr-se a jusante das alamedas e do turvo chão, testemunha das planuras, pouquidões humanas.
Há pássaros óbvios. Outros habitam o peito dos mares e aí parecem-se a peixes e a algas que erram. Os pássaros não deixam tocar-se porque são nus e anunciadores. Raro desfazerem-se das sedas de que são articulados: ponto a ponto. Os pássaros são orgíacos, substantivos, a despeito de seu desarvoramento.
Pássaros são feitos de gritos monossilábicos e pulsam pautados: cascos partindo-se no ar. São o silêncio das claras de ovo, o modo de ser da marcha resolvida dos alados.
Os pássaros expõem-se denodados mas de perfil. Irrompem nas desferidas asas ou as colam ao corpo — depositário das deliberações que exacerbam os arcos, que se dão sempre e quebram-se.
haroldo maranhão (07/04/1927 - 15/07/2004)
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