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sábado, 29 de dezembro de 2007

Um corpo inteiro, uma alma partida

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Não, não é preciso um homem desdobrar-se em vários, para alimentar vários personagens. Não, não é preciso socorrer-se da heteronímia para se ser mais do que um. Basta ser-se inteiro. Está reunida a primeira condição. A partir daí é só preciso um homem ir-se partindo, aos bocadinhos.
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José António Barreiros, in "A Janela do Ocaso"


imagem: René Magritte daqui

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

barco

Foto de José Bolt, do magnífico Escrever com Luz
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um barco somos.

alguém vai partir para sempre
ou chegar para nada

Júlia Moura Lopes

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Salmo de Natal / Silas Corrêa Leite

Virgem com menino Jesus e São João Baptista" de Domenico Beccafumi

“O que a chuva separa/O rio une/O que a pedra desgasta/O gume afia/
O que o beijo excede/O corpo não contém/O que a guerra faz/É armar a morte...”
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“O que o horizonte cerceia/O imaginário vê/O que o poeta não pensa/
O inconsciente resgata/O que a palavra ensina/O íntimo denota/
O que a nuvem carrega/O alto céu despença...”
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“O que a alma precisa/Os atos camuflam/O que o silêncio acalca/A solidão relê/
O que o gesto sublima/A mente adoece/
O que a morte desnuda/A saudade agasalha...”
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“O que a cerca vigia/O desejo corrompe/O que o coração sente/A vida promove/
O que o poeta escreve/É a sua cruz de açúcar/
Pois o que o rio une/O SOL LEVA PRO CÉU...”
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Salmo de Natal do Poeta Silas Corrêa Leite

No Coração



Celui qui n'a pas Noël dans le coeur ne le trouvera jamais au pied d'un arbre.

Roy Lemon Smith

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

DIA DE NATAL


Foto de José Bolt

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeus enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha se uma roupagem diáfana a desembrulhar se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda o a surpresa
Do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.

Já está!
E fazia as erguer para de novo matá las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas

António Gedeão

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Tormento de Deus




Deus disse: "Se tal vos repugna,
não acrediteis em mim,
mas ficaria feliz
se encontrásseis algum encanto
num ou noutro ser da minha lavra:
o búzio, onde dorme a música,
o plátano, que cresce para lá das estrelas,
o mar, que diz cem vezes: "Eu sou o mar."

Sinto-me muito humilde:
o meu universo não é mais belo
do que um poema perdido."


Alain Bosquet, in "O Tormento de Deus" , 1987

E o Douro aqui tão perto...


Ao visitar este blogue esbarro com este post AQUI. Memória parada no meu Lugar de infância. Aqui brinquei, sentei nestes muros, sonhei com fadas e duendes. As termas de Caldas de Moledo, fundadas pela Rainha D. Mafalda que aqui se refugiou. As suas águas estão indicadas no tratamento de doenças reumáticas, bronquites, sinusites, rinites, laringites, faringites.

Únicas na cura de dermatites.


Mas desta Avenida e seus plátanos, só eu sei. Obrigada à Swt. Isto é que foi uma verdadeira prenda de Natal.

sábado, 15 de dezembro de 2007

CINCO FILMES FAVORITOS


Quando falamos do filme de Michael Radford deveríamos fazê-lo com uma boina de carteiro, ora na mão, ora na cabeça. Com a convicção de que estamos a descobrir o mundo, ou simplesmente a redescobri-lo. Dizer cada palavra como se fosse a primeira, de tal forma que nos soubesse tão bem que a guardaríamos apenas para as ocasiões especiais. Quando falamos do filme, dizíamos, será bom que também nós, por instantes, façamos de Mario Ruopollo.
A certa altura, no decorrer do filme, Neruda diz a Mário que a explicação da poesia significa a morte do poema.
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cinco filmes, pede-me a T dos Dias que Voam
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1º O Carteiro de Pablo Nerudo, ilustra este post
2º O A mulher do Lado, de François Truffaut
3 º La belle de jour, de Luis Buñuel
4º A filha de Ryan, de David Lean
5 º A Noite, de Michelangelo Antonioni
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Passo o trabalho a:
JG, do Zoo,
Jorge Ferreira, do Tomar Partido
Huckleberry Friend, do Codornizes
Ana Vidal, do Porta do Vento

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Clarice Lispector / A Hora da Estrela

Yves Pires - escultura em bronze


"Ela nada podia mas seu sexo exigia, como um nascido girassol num túmulo."

Clarice Lispector, ligando o prazer à morte in "A Hora da Estrela"