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terça-feira, 29 de abril de 2008

a cidade e as serras


Quem me conhece diz que sou parecida a meu pai, alheada do mundo.

Dizem-me também urbana. Enfim, diz-se muita coisa de mim. Eu digo que é tão verdade como é tudo mentira. Nem eu própria sei.

Sobre o ser distraída, já dei provas de ser surpreendente quando quero concentrar-me. Tão surpreendente como eu viver longe dos Centros Comerciais, sem que isso me tivesse apoquentado.

Isto para vos contar que quando caí feito Ovni no cimo de um monte, a 3 quiilómetros de Amarante, a primeira coisa que perguntei foi como ir ao cabeleireiro numa emergência. Depois de verificar que não haveria "emergência" que me valesse, desisti.

A segunda, foi como fazer face a uma eventual falta de condimentos na cozinha que eu queria perfeita. Depressa fui arranjando mecanismos para suprir as possiveis faltas.

Acontece que no cimo do monte, lá perto das terras de Pascoaes e mais junto ainda das de Agustina, havia algo que me sobressaltava os pensamentos e os invadia, durante as minhas lides pedestres.

Na realidade, foi fácil viver sem cabeleiro e fácil foi viver sem hipermercado à mão de semear. O que me confundiu o sistema, foi habituar-me ao facto de haver sempre alguém, isto apesar de eu não conhecer ninguém naqueles montes, que me sobressaltava a silenciosa caminhada, irrompendo, vindo não sei de onde, num sonoro "BOM DIA, MENINA!".

Tão assustada ficava, que mal conseguia articular alguma resposta.

Meu ex-marido preocupado com a imagem, advertiu-me que apesar de não conhecer ninguém, eu deveria saudar as pessoas, daria boa impressão fazê-lo. Concentrei-me deveras e com muita força na advertência, mentalizando : "Julia, quando avistares alguém ao longe, tens que saudar a pessoa que se aproxima "

Não há casa naquela região que não tenha um tanque. Aquela mulher estava a lavar a roupa no tanque e a 100 metros de distância, já eu ouvia a voz dela num cantar desabrido que soava aos meus ouvidos como um alarme.

Calculando a proximidade, fui estudando a minha saudação, enquanto sorria por dentro. Quando já perto do alvo, lancei entusiasmada o meu BOM DIA sorridente!

Ela parou de cantar, olhou-me, com a roupa na mão saida do tanque e respondeu-me "Boa Tarde, menina” e continuou a cantar.

Quem me conhece, também sabe que mesmo concentrada, não acerto uma.

11 comentários:

  1. Olá Júlia,
    Nisso somos bastante parecidas. Também não acerto uma. Bom dia, boa tarde, almoço, jantar, entre outras são palavras que atiro para o ar sem ter qualquer noção.
    um beijinho

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  2. Deliciosa! Com muito menos drama lembrou-me a porfia da Ingrid Bergman em «Stromboli» tentando agradar às habitantes da aldeia piscatória e nunca as satisfazendo.
    Beijinho, Querida Júlia

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  3. Essa história do cabeleireiro é no mínimo hilariante! :)

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  4. Pois, as necessidades variam conforme os sítios em que vivemos e as circunstâncias que nos rodeiam. Tudo se relativiza. Eu, que venho de aí perto, sei bem do que fala.

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  5. Capitão, não se meta comigo por causa do cabeleireiro, ultrapassei e bem essa preocupação. sou adaptável :-)

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  6. JM,

    Era mesmo isso que eu queria transmitir! Obrigada por ter entendido :-)

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  7. Querida Júlia, o engraçado é que a sua saudação foi «estudada» ou preparada. Não sei por que é que estas coisas acontecem. Sei que, comigo, há uma pequena dose de «nervos» associada. Acontece-me muito ao telefone. Não acerto uma «deixa», nem mesmo, senão sobretudo, quando a treinei previamente. Depois, fico a remoer no que disse e no que deveria ter dito… Gostei muito desta sua «memória». :-)

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