Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das
horas. Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
Irene Lisboa
Nota : Dedico ao JAB que escreve tão bem e tem um blog dedicado a I.L. aqui
Bom dia.
ResponderEliminarA Irene Lisboa, como todas as esquecidas, as abandonadas, as não lembradas, reclamam, do âmago do seu desespero de escreverem por quererem ser amadas, que as citem, as recitem, as passem de boca em boca.
Obrigado por isso.
Um bom domingo
Faço minhas as palavras do comentador que me precede.
ResponderEliminarVinha aqui acrescentar que Irene Lisboa foi uma magnífica escritora e, quando lembrada, isso é bem patente.
Tudo a condizer.
ResponderEliminarI. L e Jab.
e JULIAML
.cordialmente.
Tudo a condizer.
ResponderEliminarI. L e Jab.
e JULIAML
.cordialmente.
Isabel, nem de propósito,acabei de criar um link para o piano a propósito de M.G.Llansol. Linda homenagem lhe fez!
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