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sábado, 17 de março de 2012

Pretextos para fugir do real


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A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar

Por isso fecho os olhos

(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)

Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio

Experimento um silêncio

Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

Assobio às pequenas esperanças
Que vêm lamber-me os dedos

Perco-me no teu retrato
Horas seguidas

E ao trote do ciúme deito contas
Deito contas à vida.

Alexandre O’Neill, in “Tomai lá do O'Neill” , Mem Martins , Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 1986

2 comentários:

  1. Gostei, é muito bonito e interessante. Há nesta fuga um descontentamento com o real e, decorrendo dele, há um certo prazer mínimo, virtual e autêntico.

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  2. Um poema intimista de alguém que conseguia ser sublime na ternura... quando queria ser terno!

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