- Chiang ... - começou ele, um pouco nervoso. A velha gaivota olhou-o com bondade.
- Diga, meu filho.
Em vez de enfraquecer, a idade dera força ao Mais Velho. Em vôo batia qualquer gaivota do bando, e aprendera perícias de que os outros só muito lenta e gradualmente começavam agora a aperceber-se.
- Chiang, este mundo não é o paraíso, é?
O mais velho sorriu ao luar:
- Você está aprendendo outra vez, Fernão Gaivota.
- Bem, e o que é que acontece depois disso? Para onde vamos?
Não há um lugar chamado paraíso?
- Não, Fernão, não há tal lugar. O paraíso não é um lugar nem um tempo. O paraíso é ser perfeito. - Ficou em silêncio durante um momento. - Você voa com muita velocidade, não voa?
- Eu ... Eu gosto da velocidade - respondeu Fernão, surpreendido mas orgulhoso de que o Mais Velho o tivesse notado.
- Você começará a se aproximar do paraíso, no momento em que alcançar a velocidade perfeita. E isso não é voar a mil e quinhentos quilômetros por hora, nem a um milhão e quinhentos mil, nem voar à velocidade da luz. Porque nenhum número é um limite, e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita, meu filho, é estar ali.
Sem avisar, Chiang evaporou-se e apareceu à borda da água, à distância de quinze metros, numa centelha de instante. Depois evaporou-se outra vez e surgiu ao lado de Fernão, no mesmo milésimo de segundo. - É divertido -comentou.
Fernão ficou atordoado. Esqueceu-se de fazer perguntas acerca do paraíso.
- Como é que se faz isso? O qué é que se sente? A que distância se pode ir?
- Desde que você o deseje, pode ir a qualquer lugar e a qualquer momento - disse-lhe o mais velho. - Que me lembre, já fui a todos os lugares e a todos os momentos. - Olhou o mar, pensativo. - É estranho ... As gaivotas que desprezam a perfeição por amor ao movimento não chegam a parte alguma, devagar. As que ignoram o movimento por amor à perfeição chegam a toda parte, instantaneamente. Lembre-se, Fernão, o paraíso não é um lugar nem um tempo, porque lugar e tempo não significam nada. O paraíso é ...
- Pode ensinar-me a voar assim?
Fernão Gaivota tremia de ansiedade por conquistar outro desconhecido.
- Claro, se você deseja aprender.
- Desejo, sim! Quando podemos começar?
- Se quiser, podemos começar já.
- Eu quero aprender a voar assim - disse Fernão, um brilho
estranho a iluminar-lhe os olhos. - Diga-me o que devo fazer.
Chiang falou devagar, observando cuidadosamente a gaivota mais nova.
- Para voar à velocidade do pensamento, para onde quer que seja, você deve começar por saber que já chegou ...
(Richard Bach)

6 Comente:
E feitos hoje, Júlia? Se sim, muitos, muitos parabéns. :-)
Gosto imenso desse texto que escolheu.
Ai Fernão Capelo Gaivota! Fui ver o filme no antigo cinema Apolo 70, ali ao Campo pequeno, um "must" dos anos 70!
Como sonhei através desse filme, as paisagens, a música do Neil Diamond... um tempo em que ainda, jovens, sonhávamos...
Em tempo: a página está linda! (como a dona...)
Viver é desenhar sem borracha.
(Millôr Fernandes)
Parabéns Júlia (J.E)
Com atraso, parabéns.
Mau tempo no mar e gaivotas em terra.
isto era nos tempos idos.
Agora é, gaivotas em terra com bom ou mau tempo no mar.
E não é que as "badalhocas" não usam cuequinha e sujam os carros todos.
A Chiango e Fernão Capelo, parecem-me mais civilizadas.
Até falam.
Penso que não existe maldade nessa parte do reino animal e ainda bem.
Um bom fim de semana.
Atrasados, muitos parabéns!
Estou encantada com o teu caminho, parabéns por isso!!!!
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