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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Gato Preto


óleo sobre tela de Judy Wise

Um fantasma, apesar de invisível,

acusa o toque do teu olhar,

o que não acontece com o teu pêlo

negro e felpudo, que absorve tudo.

Como um louco que, num acesso

de mania, destrói tudo em redor,

e de súbito cai numa espécie de torpor,

no chão acolchoado da cela,

Ele parece dissimular dentro de si,

todos os olhares que nele pousaram,

para agastado e ameaçador

se enroscar e com eles adormecer.

Mas, de súbito, desperta de novo,

volta-se para ti e olha-te nos olhos:

descobres-te, então, a ti próprio, suspenso

no âmbar amarelo dos seu olhos ovais

como se fosses um insecto e nada mais.

Rainer Maria Rilke

Animal Animal – Um Bestiário Poético

Assírio & Alvim, 2005

Trad. Jorge Sousa Braga


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Le chat noir

Un fantôme est encore comme un lieu
où ton regard se heurte contre un son;
mais contre ce pelage noir
ton regard le plus fort est dissous :
ainsi un fou furieux, au paroxysme
de sa rage, trépigne dans le noir
et soudain, dans le capitonnage sourd
de sa cellule, cesse et s’apaise.

Tous les regards qui jamais l’atteignirent, il semble en lui les recéler pour en frémir, menaçant, mortifié, et avec eux dormir. Mais soudain, dressé vif, éveillé, il tourne son visage dans le tien : et tu retrouves à l’improviste
ton regard dans les boules d’ambre
jaunes de ses yeux : enclos
comme un insecte fossilisé.

(Rainer Maria Rilke)


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