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quarta-feira, 27 de maio de 2009

O NASCIMENTO DO PRAZER

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela
alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.


Clarice Lispector
Tela: "The Blue Lovers", Chagall

6 comentários:

  1. Por vezes tenho medo quando me sinto feliz, alegre, leve.
    É preciso esforçar-me para viver esses momentos e não deixar-me levar pela ansiedade de que tudo pode/vai acabar.
    Estranhos somos...

    Xóóó, pensamentos melancólicos!; afinal, como disse o Poeta, o Mundo não se fez para pensarmos nele mas para olharmos para ele com o pasmo essencial que teria uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras...

    (tinha saudades, já disse...)
    :-)

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  2. obrigada, Querida Fugi,

    (arre, que nome enganador, hein?)

    :-))

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  3. "E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida". És dada ao dramatismo, mas gosto do que escreves, Clarice. :)

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  4. Mike, (risos)

    acredita que aundo li essa frase pensei que o meu amigo iria barafustar? :-))

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  5. E tem-se medo do prazer, m teme-se a total felicidade, e esse medo de perde-la, de que ela se vá sem volta, consegue impedir-nos de ser totalmente felizes... Contradições da alma...

    Parabens pela escolha de tão lindo texto.
    beijos

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