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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Carta aos mortos

***


Amigos, nada mudou
em essência.


Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote,
e a primavera chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

***

Affonso Romano de Sant'Anna

7 comentários:

  1. Há quem eu acho delicioso pela forma como compunha as aulas e poemas. António Gedeão, Rómulo de Carvalho. Vou tentar recordar este autor que apresentou... parece-me alguém capaz de ambas as coisas, também.
    bem haja,
    J.

    PS: ...tinha saudades de a visitar. por causa de coisas assim, por exemplo...

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  2. De facto, Júlia, a vida é uma monotonia. Não fosse o bendito instinto, até nos cansava. ;-)

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  3. Nós podemos mudar! Sempre...

    Pessoas como TU, também têm o poder de nos influenciar para essa mudança!

    Agradeço-te Jullie :)

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  4. Ena, ena... nada mudou em essência... mesmo! :)

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  5. "Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
    ou toma a fresca da tarde,"

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  6. olá, Julia

    que texto tão bonito e tão fotografico.

    um beijinho e obrigado.

    zé boldt

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