Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CóLERA DIVINA





Quando fui ferida,
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma,
- ainda não sei –
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.


Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.

Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
- ele, um bicho que não é gente –
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?

Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.


Adélia Prado

Tela: "Ascension" de Leslie Lee

Nota: dedico à minha querida amiga Marie

3 comentários:

  1. magnifico.




    _____________porquê?


    .



    :) por coisa nenhuma________afinal.


    beijos.....m.l.

    ResponderEliminar
  2. É o pedido de Perdão por existir demais, enquanto que o da Bête da Belle de Cocteau o era por fazê-lo de menos.
    Beijinho, Querida Júlia

    ResponderEliminar
  3. Júlia, querida, só hoje entrei por aqui. Falha minha. Obrigada. Você captou exatamente o que sinto. E é por isso que gosto tanto de você e a admiro cada vez mais. O comentário do Paulo foi certeiro: "perdão por existir demais..."
    Um grande beijo.

    ResponderEliminar