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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

BUNDA

foto (nem me atrevo dizer de onde a tirei)

"Quais são os limites da linguagem? Quem os traça? Claro, a publicação pode defini-los: bunda não sai. E abundante? E culatra? E recuar? E acuado? (...) Que palavra sugere que eu use em vez de bunda? Nádega? Juro que aí, sim, eu coraria de vergonha. Traseiro, pompom, bumbum, assento, posterior? Não, eu tinha que usar bunda, a palavra certa, bonita, essa bonita palavra africana. Jamais usaria um eufemismo gracioso. Como humorista profissional me proíbo de gracinhas - coisa de amador. Se usasse rabo, palavra mais forte, também extremamente expressiva, estaria forçando a barra - no contexto da revista. Mas, muito bem; vetamos bunda no atual artigo. E se, em outro, eu escrever língua bunda, dos angolanos? Ignoro a existência da língua? Ou a chamo, discretamente, de língua nádegas?"

Millôr Fernandes

(Bilhete a um editor da revista Veja. 1978)

Nota - Millor tem razão, nádega e o c_ português é bem mais forte, mais feio e menos sensual.A bunda brasileira é mais engraçada, como dizia Drummond:


A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
rebunda.

10 comentários:

  1. Fabuloso 'post'!
    Formidável Millôr!!!

    (ele há coisas que, apesar dos pesares, nos iluminam as manhãs... - obrigada, linda!)

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  2. ...deve estar a falar dos animais, Francesco...:-)

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  3. Poema Para as Nádegas

    As nádegas passam por mim
    Num bamboleio fílmico sensual
    Que parecem ser o horizonte feminino de toda estética
    Que cabem no auroral de cada fêmea-fatale

    As nádegas não, as bundas...
    Diriam Drumond de Andrade ou Millôr
    Eu as vejo no corpo-violão da donzela de saia verde-chá
    E cumprimento-a com meu olhar estrambólico

    Porque as nádegas, ou, as bundas
    Têm um sei lá o quê de si mesmas
    Que complementam o corpanzil de qualquer mulher
    E parecem colocar pingos não nos is, mas nos dáblios

    -0-

    Silas Correa Leite

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  4. :-)
    olá Poeta Silas!

    gostei especialmente a última estrofe! :-)

    abraço!

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  5. Grande post, Júlia.
    E a fotografia é um verdadeiro monumento à bunda, nenhum homem faria melhor!

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