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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Dos Pitos e das Ganchas


O Pito de Santa Luzia é um doce conventual de Vila Real de Trás-os- Montes
No dia 13 de Dezembro, são os rapazes que recebem o pito, em Fevereiro são as raparigas que recebem a gancha
Neste dia de Santa Luzia, em Vila Real, manda a tradição que as raparigas da cidade ofereçam o pito aos rapazes seus eleitos, para que no dia 3 de Fevereiro, dedicado, na liturgia, a São Brás, os rapazes, retribuam a oferta com a gancha.Para que não haja confusões, convém referir, que o pito é um bolo com recheio de doce de calondro
e, a gancha,um rebuçado em forma de báculo bispal.

A lenda

Foi uma moçoila da aldeia de Vila Nova, em Vila Real, que os inventou quando foi servir para o Convento de Santa Clara, onde tomaria o hábito depois dum noviciado entre a cozinha e o apoio aos pobres e aos doentes a que a ordem, na sua misericórdia e caridade infinitas, dava guarida de hospital. Maria Ermelinda Correia, depois Irmã Imaculada de Jesus, era deveras gulosa. Foi este defeito que levou a família a pedir a graça da clausura na esperança de lho transformar em virtude.(...) No intervalo dum silêncio de «regra» conventual falava de doces, a resposta era sempre a mesma: «nem vê-los».Na sua inocência, começando a percorrer os caminhos da Fé e da Doutrina para o noviciado tornou-se devota acérrima de Santa Luzia, orago dos cegos e padroeira das coisas da vista.Foi assim que os pitos de Santa Luzia lhe foram consagrados, e como tal testemunha a festa que ainda hoje, a 13 de Dezembro, na capela de Vila Nova, mantém a tradição.

E como aparecem os Pitos? A ainda Ermelinda, aspirante a irmã Imaculada de Jesus, tendo ouvido a história do Milagre das Rosas, a orar a Santa Luzia teve uma visão que lhe aplacou a alma num milagre de doces esperanças. Naquela manhã fizera o curativo a uns quantos doentes. Na maioria dos casos foram feridas, contusões e inchaços nos olhos. O remédio daquele tempo eram os «pachos de linhaça».Eram uns quadrados de pano cru onde se colocava a papa, dobrados de pontas para o centro para não verter a poção. Eram colocados, como um penso, no ferimento. Correu à cozinha e fez uma massa de farinha, pois a pouco mais tinha acesso, e cortou-a em pequenos quadrados. Não tinha doce mas, tendo guardado o cibo de açúcar que lhe cabia em ração, fez uma compota de abóbora.Dobrou a massa por cima da compota, à imagem dos «pachos», e cozeu-os no forno sempre quente a qualquer hora do dia. Despachou-se de seguida a escondê-los debaixo do catre da sua cela.No caminho cruzou-se com a Madre Superiora (que era praticamente cega). No meio da escuridão a abadessa pergunta-lhe o que leva no tabuleiro. A velha senhora ainda empina o nariz para ver se adivinha pelo cheiro.«São pachos de linhaça irmã Madre... Para os meus doentes que amanhã virão».Não eram muito agradáveis à vista mas, satisfaziam-lhe a gula e calavam na profundeza da alma o pecado que não se sentia porque comendo-os na escuridão da cela e da noite, sabia, porque o tinha ouvido dizer, «do que não se vê não se peca».
Leia mais no Espigueiro e aqui


PS : Eu recomendo os Pitos de primeiríssima qualidade da tradicional "Casa Lapão", meu fornecedor quando fui proprietária da loja "porto de Sabores"


Gancha


PS 2 Querido Mike, espero que se inspire e me ofereça um post sobre as Ganchas, já que este Post do "Pito de Santa Luzia" lhe é dedicado com toda a propriedade (inserir um sorriso cândido)

21 comentários:

  1. E eu agradeço a amabilidade, Júlia. E encarregar-me-ei de lhe oferecer um post sobre as ganchas, apesar de considerar uma travessura sua. :D
    p.s. - o que eu me ri com o Pito de Santa Luzia... (risos)

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  2. travessura?...

    para ser sincera, foi mais uma questão de oportunismo, muito à moda de lá dessas bandas. ;-)

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  3. A Santa era uma verdadeira gestora de imagem, embora com a preocupação inversa da domnante.
    Ah, Pitão!
    Beijinho, Querida Júlia, adorei!

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  4. Querido Paulo, o engraçado é que A Visão foi fotografar os Pitos da minha loja. Houve um Vilareasense que reclamaou, pq os pitos da reportagem não eram bem os tradicionais da tal casa que refiro "Lapão", na foto eles estavam demasiado "arreganhados" :-)))

    (queriam dizer abertos)

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  5. enquanto houver calondro, há Pitos, dizem eles , Cristina :-))

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  6. calondros e pitos.... caramba, só provando! ahahah...

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  7. júliaml,
    excelente, o pito da Santa Luzia, abriu-me o apetite
    :-)

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  8. Flip, eu até nem gosto e doces mas gosto dos Pitos de Sta. Luzia.

    Já não gosto das Cristas de GALO, que é outro doce conventual do Marão mas de mais sofisticada elaboração.

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  9. A lenda é giríssima, Júlia, e a «moral» - «do que não se vê não se peca» - não o é menos. Devem ser muito interessantes as «origens maravilhosas» dos nossos muitos doces conventuais. :-)

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  10. Que sorte a sua, Fugi, se vivesse naqueles tempos, com o gosto que tem pelas guloseimas, acntecia-lhe o mesmo que acontceu à Ermelinda que vioru Maria Imaculada de Jesus LOL

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  11. Luisa, é isso, os conventuais têm sempre qualquer coisa de didáctico.

    quando tiver paciência colocarei a lenda das cristas, também é interessante...eu tinha uns olhetos ,mas não sei o paradeiro deles...

    beijinho

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  12. Impossível, Júlia, não tenho alma de freira :-)))

    (aliás, quando era muito mais nova, passou-me tal ideia, muito muito depressa pela mente, mas quando percebi que... hum... não havia "dot dot dot", foi-se a fé (risos abafados)
    ;-)

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  13. O que é doce de calondro, Júlia? Não conheço... as coisas que eu aprendo aqui sobre o léxico do Norte! :-)

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  14. Ana, calondro é a abóbora menina.
    :-)

    Os pitos devem ser feitos com abóbora-menina.

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  15. Apetitosa de tão pecadora, esta história dulcíssma.

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  16. Guloso um bocadinho... mas não abuso de todo...

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