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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Outro Testamento



Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer...
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me — só horizonte — para o mar.

vitorino nemésio

Vitorino Nemésio - Nasceu em Santa Cruz, na Praia da Vitória, Ilha Terceira, a 19 de Dezembro de 1901 e faleceu, em Lisboa, a 20 de Fevereiro de 1978.

13 comentários:

  1. Confesso, Júlia, que gosto mais da prosa Nemesiana. Aliás no geral prefiro-a, e anteponho a prosa poética. Gosto de encontrar poesia em vários registos.


    P.S. Acabo de ver que foi alvo de um dardo do Nuno, lá no ES.

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  2. Não conhecia, Júlia. Estou verdadeiramente encantada. Este seu blogue é um oásis. Beijos!

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  3. Nemésio é mais um filho do mar, como Sophia. E de que mar, e de que ilhas!
    Só podia expressar-se assim, desta forma tão bela...

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  4. Sim, belíssimo.

    Eu, porém, quando penso na morte, só me recordo do poema do Mário de Sá Carneiro (será por causa da música dos Trovante).
    Não tem mar mas tem, para mim, a força da alegria :-)

    «Quando eu morrer batam em latas,
    Rompam aos saltos e aos pinotes,
    Façam estalar no ar chicotes,
    Chamem palhaços e acrobatas!

    Que o meu caixão vá sobre um burro
    Ajaezado à andaluza...
    A um morto nada se recusa,
    Eu quero por força ir de burro.»

    Bj

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  5. júliaml,
    mais uma bela escolha, a melhor homenagem a qualquer poeta, escritor, é lê-lo, sorver da sua escrita o que de mais belo nos deixou. Outro belo testamento, sem dúvida.
    :-)

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  6. Querida Júlia,
    pois eu, ao contrário da Cristina, gosto muito da poesia de Nemésio. O tom deste poema e daquele que a Fugi lembrou não andam longe do do «Moribond» de Brel, pois não?
    Beijinho

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  7. um outro nome

    grande
    muito
    grande

    da portugalidade


    obrigada ,Júlia


    .
    um beijo

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  8. Gosto de Vitorino Nemésio. Da pessoa. E gosto que ele goste do mar.

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  9. Curioso que tenho-me lembrado de Nemésio, do qual, "miúdo", bebia as palavras no seu " Se bem me lembro...". E penso como seria bom (a todos os títulos) reporem esse programa na TV...

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  10. "só horizonte" .. e como são largos e recheados os seus Querida Amiga que connosco partilha estas pérolas :)
    Obrigada por isso e votos de um bom fim-de-semana *

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  11. Que saudades de Vitorino no pequeno ecran a preto e branco. Se Bem Me Lembro dizia: "Quando tinha bintanos não tinha binte paus; agora tanho binte paus mas tanho setentanos".

    Bom fim-de-semana
    Abraço
    António

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