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sábado, 11 de outubro de 2008

A NOITE




A noite vem do mar.

Da voz
transversal e rouca que dilacera
a sílaba única do sol
quando cai nas suas águas.

Subo lentamente o olhar de pequena luz ao teu corpo
e só a memória é deslumbrante

na noite imperecível de amor e sofrimento.

Tudo se separou há muito.

O mar, a terra, a boca,
os figos da infância, o fogo intenso dos poemas
quando desciam a cidade em alegria
de dispersá-la.

Nas telhas, agora à altura dos olhos, sei
a fragilidade da passagem,

dessa,
que tudo forçou ao abismo mas não sei,
por exigência poética de vida,

morar em ti.

Este vento, ligeiro, que a noite o quer,
tem o passado de si e os gumes
de todo o abandono.

De todo o abandono.

Agora, a noite convoca-me e seguro nela
a tua face.

Como se fora um reflexo,
uma quietação.

Ajustam-se, no meu pensamento,
alguns deuses estremecidos, talvez inquietos
por se saberem pensados

assim tão além do coração.

Desordenam eles as margens da vida
e cicatrizam no corpo a liberdade
dos sentidos.

Se o bem é real,
sentimento e dor
andam nele acometidos.

A noite envolve a alma
na efémera música das origens e parece

que toda a ordem do Mundo,
num repente, me mostra a beleza
da duração.

A noite desvela o que já não existe
para se ouvir. Nenhuma palavra amiga
chega,

apenas a força do grande silêncio
que já não consegue traduzir as lágrimas
em água

na carne rasgada.

Fragmentada a dor,
a noite persiste em ti num desejo sublime do peito
de,

dilatada a angústia,

poder ver-te chegar, ainda que impiedosamente,

na pequena madrugada.
Só,
desço agora o caminho da própria casa, devagar.
Com ela entregarei o corpo todo.

A ti, as palavras.
O corpo,

ao mar.

É nessa fronteira real do universo sensível
que a origem contém
a última das águas,

a primeira luz,

o presente regresso dos olhos na sua perfeição
de enfeitiçar,

o primordial indício moroso que,
sabiamente,

modera a distância
do nosso olhar.

Rogério Carrola, In do corpo sentido

Blog do autor Escrita Permanente

14 comentários:

  1. Caramba que o Rogério é um escritor de mão cheia. A um escritor que escreve em verso, chama-se poeta, não é?

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  2. A um homem que escreve aquilo que a gente sente chama-se Poeta :-)


    Já escolhi este poema há muito, por falar do mar. Vou declama-lo,já decidi, no proximo Filo-Café :-)

    antes, gravarei e enviar-lhe-ei a si, Menino do Mar :-)

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  3. Quantos valores não se perdem e o seu legado, pela má organização de editores e livreiros.
    Depois dizem que o negócio está mau.
    Só vêem a negociata dos livros escolares e dão-se ao luxo de só fazerem os que lhes apetece e não o que o mercado, que os alertou em Junho, pediu.

    Para publicar um livro em portugal, o autor, com sorte, se cumprir todos os capítulos da triste sina e estiver de bem com o Fisco, recebe, 3 a 5 %, do seu valor intelectual.
    O restante vai para a voragem "dos que não ganham nada com os livros ...".
    Desculpe a desfaçatez com que escrevo e não é para diminuí-la.
    Mas por vezes em "pequenos" blogs, encontramos pérolas enormes ...

    Um bom fim de semana.

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  4. Por favor, Júlia, querida, recite esta beleza... Obrigada por postá-lo. Um grande beijo.

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  5. Querida Júlia,
    as noites são mil e uma, não é?
    Depois da que enforma a excitação dos sentidos como extensão do sentir, a que aplaca a dor transferida para as agitações diurnas, conferindo aptidão para novos voos, já foi identificada pelo Velho Shakespeare em:
    Come seeling night,
    Scarf up the tender eye of pitiful day.
    ...Light thickens; and the crow
    Makes wung to the rooky wood.
    Beijinho

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  6. E o "menino do mar" agradece-lhe, sentindo-se privilegiado. :D

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  7. José Torres, este poeta já tem muitos livros editados e com outros no prelo :-)

    Jamais me diminuiria, não gosto de blogues grandes, lembram-me a FNAC e os Hipermercados. :-)

    Herberto Helder disse qualquer coisa no género " o prazer está em escrever o livro, a sua divulgação, é um prazer futil"

    boa semana, José!

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  8. Querida Marie, tentarei gravar e depois enviar-lhe-ei, amiga :-)

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  9. Querido Paulo, as noites são mil e duas, e a ultima será a melhor, porque será aquela que não existe, mas a sonhada :-)

    beijinho

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  10. o menino do mar é o próprio privilégio, ora :-)

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  11. A ti, as palavras.
    O corpo, ao mar.

    Quem escreve isto só pode ser um Poeta.
    Obrigada por postares este poema lindo e me dares a conhecer o Rogério Carrola. Vou já espreitar o Escrita Permanente.

    beijo

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  12. Gostei muito, também, desta outra parte:
    «mas não sei,
    por exigência poética de vida,
    morar em ti.»

    Parabéns ao poeta
    Beijinho, Júlia :-)

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  13. Estava há imenso tempo para o postar,mas tinha preguiça de o teclar, pois é enorme. Acontece que o Rogério colocou-o no blog, e eu zás, aproveitei :-)

    beijinho,Ana.

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  14. também gostei muito, e é isso mesmo, Fugi, o Rogério tem infinitas exigências poéticas ;-)

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