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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

dos grilos

“os grilos são poetas mortos”
Mário Quintana

Naquelas férias em casa dos meus tios, em Vilar Formoso, faltava-me um grilo para alegrar o meu verão.
Ao queixar-me, depressa a empregada descobriu a melhor forma de me arranjar um.
Na aldeia fronteiriça, em Espanha, havia um menino que tinha quase 80 grilos, podia dar-me um, se lho pedísse. A boa da Rosa pegou-me pela mão e abalou comigo para Espanha a pé, disposta a arranjar um grilo para mim.

Era longe para a minha curta idade e eu lembro que chegámos tarde. Entramos numa casa que pouca mobília tinha, a empregada falando baixinho com a tia do garoto, dono dos grilos, ficou a saber que o menino tinha realmente muitos grilos, mas que era muito invejoso. Convencê-lo não seria tarefa fácil...

Lembro que a ladina da Rosa começou a conversar com o menino sobre grilos:


- tu não tens um grilo, pois não, Manolo?
- Eu tenho 74 grilos!
- não acredito, que tenhas tantos!!
- tenho, pois!
-ora mostra-nos – dizia-lhe provocadora


O inocente trouxe a prova do seu orgulho, numa caixa de sapatos. Começou cada um
a contar para seu lado, repetindo vezes sem fim a contagem. e a
ssim continuaram até a noite cair, um a contar, outro a teimar. Ele contava 73 grilos, ela a contar 74 e eu sem entender nada. Eu só queria um grilo...

Com o grilo já aconchegado no bolso do avental, a Rosa arrastou-me dali da mesma forma que me trouxe, inesperadamente. Eu
estupefacta e muito confusa a olhar para trás, sempre a olhar para trás, sentindo que algo tinha escapado ao meu entendimento.

Ainda hoje estou a ver o Manolo, com a cabeça a imitar um pêndulo, o olhar fixo no vácuo, hesitante entre o 73 e o 74, como que à espera do grilo que lhe falta, sentado aos pés da cama. Espelho meu.

19 comentários:

  1. Olá JuliaML
    Desejo que a indisposição já tenha desaparecido. Não tenho uma caixa com grilos mas sim dois sapatos debaixo da cama com muitas desilusões empedrenidas. Quando os calço, saio à rua e coxeio, visivelmente transtornado com a dor. Quando alguém pergunta: - O que é que tens?
    Respondo, mentindo: - "Devo ter uma pedra no sapato!". Abraço. António

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  2. (risos)
    Caramba, que aventura para ter um grilo :-)

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  3. Como nunca brincou aos espadachins, algo escapou ao seu entendimento... (risos)
    Eu tenho ali num quarto 37 aranhas enormes e 48 cobras venenosas... quer dizer, às vezes só consigo contar 36 aranhas e 47 cobras... há uma malandra que é tímida... (mais risos).

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  4. é verdade, Fugi :-)


    quem me dava os grilos todo os anos eram os alunos da minha mãe,mas naquele ano, na casa dos tios, a coisa ficou dificil :-)

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  5. Tentativas poemáticas,

    o melhor será tentar usar havainas, são práticas e muito frescas.

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  6. querido Mike,

    aamalandra é timida,adivinho porquê. o meu amigo vai espreitar a dita, ela intimida-se. ainda não aprendeu a respeitar a intimidade da aranha?
    aiiii

    :-))9

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  7. E esse grilo que levaste para casa, era um grilo falante? ;)

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  8. Por motivos óbvios, não vou colocar os nomes verdadeiros.

    Há uns largos anos, caminhava no meu local de trabalho, um enorme salão, do palácio do Barão de Nova Sintra, quando me apercebi que atrás de mim, vinha o director do departamento.
    (Não por uma questão de hábito dos chefes, mas o dito cujo, mesmo tecnicamente, era uma nulidade).
    Numa gaiola à janela, estava um grilo que não parava de cantar.
    Dirijo-me para a minha secretária e "atiro":
    - Oh! João. Vê se tiras as pilhas ao bicho porque necessito de trabalhar e quero silêncio.
    Sento-me na secretária, o director continua e vai em direcção à janela.
    Antes de o ver bem, diz:
    - Parece mesmo verdadeiro.
    E caminha para a janela.
    Ao chegar junto do bicho, ficou pior que um bicho e muito vermelho de vergonha disse:
    - Aquele Torres, está sempre na brincadeira ...

    É esta a minha história verdadeira dum grilo, ou duma grila ...

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  9. Julgava que os grilos, dos raros insectos por que não nutro uma antipatia mortal, não tinham essa semelhança a moscardos que vejo na imagem do seu «post». Fazia-os mais esguios e esverdeados, ou, por outras palavras, mais elegantes e dignos. Mas a história é, mesmo assim, deliciosa, Júlia, especialmente pela conjugação da habilidade da Rosa com a sua ingenuidade. :-)

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  10. Minha querida.
    Essa dos grilos lembra-me uma erótica. Também tive sempre um, numa gaiola com serradela ou alface.

    Rogério Carrola

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  11. Lembro-me que o meu pai todos os anos comprava uma pequena gaiola com um grilo lá dentro: o grilo era negro, com a sua folhinha de alface renovada todos os dias... vendiam-se assim: uma gaiola pintada de vermelho, pequenina... com um grilo lá dentro...

    pobres grilos... duravam pouco tempo... eram assim aqueles tempos... pequenas coisas...

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  12. Querda Ana,

    a história do grilo falante foi mais tarde ;-)

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  13. está engraçada, essa história do chefe que não entendia de grilosnem de coisa nenhuma :-)))

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  14. Querida Luisa, os que tenho na memória são todos pretos, estes da foto são galegos,mais claros :-))
    A minha mãe dizia que os grilos não cantavam se não tivessem companheiria. Por esse motivo, eu tive sempre um casalinho. Tambem detesto os outros insectos..

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  15. Querido Rogério, queria lembrar-me do nome da erva e não conseguia! Eu ia catar serradela pelos montes, para que os grilos não morressem enjoados de alface.

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  16. CM, a mim eram os alunos da minha mãe que mos ofereciam. Disputavam essa honra.

    A pouca durabilidade deles tb me deixava triste.Principalmente porque no ano seguinte eram tão facilmente substituiveis...

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  17. "Tá" a ver? Os alunos da sua mãe achavam a filha dela toda gira... "bora" dar-lhe um grilo...

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  18. Também tive um grilo numa gaiola, mas o meu quarto era encostado ao dos meus pais
    e o grilo começava a cantar por volta das seis da manhã
    Obrigaram-me a dar-lhe a liberdade, em plema Lisboa

    Beijinho doce, pelos grilos perdidos.
    Adoro pirilampos!

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