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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Abanando a angústia - Paulo Pucciarelli


Tirou um leque da gaveta e abanou a angústia com certa rigidez de movimentos. Angústia não se cura apenas com o vento de leque, ela constatou. Talvez se mastigasse o vento com furiosas dentadas, o estômago cheio lhe desse um reconforto instantâneo, curando-lhe daquela pequena azia existencial, enxaqueca de velha. Abriu a boca quatro ou cinco vezes, mastigou o vento fresco e se deu por inteiramente curada, ao desviar os olhos para uma menina que tossia debaixo de sua janela. Sentiu um alívio e resolveu escarafunchar a gaveta onde dormiam pequenos pertences: lenços, terços, medalhas, tiaras, pequenos frascos de perfume, retratos esparsos em preto e branco de um tempo antigo. Olha ela ali, entre as primas. Era a mais bonita. Os olhos brilhavam e o colo escondia perfumados desejos, sustentados por coxas roliças e duras, amestradas em exercícios de danças e caminhadas no campo. Dizem que foi a paixão do dr. Souza, médico e fazendeiro que a cortejou de todos os jeitos, mas que morreu cedo, levado por uma tísica galopante que não resistiu nem estação na Suíça. Na verdade, ela não amou o Souza. Não amou ninguém. Foi ficando na casa antiga, cuidando dos pais, dos tios, das irmãs, dos irmãos. Sobreviveu a tudo e a todos. Vive pela casa, ora abrindo gavetas, ora olhando as tábuas gastas e sem brilho, ora descobrindo pequenos gestos malucos, como mastigar vento, para curar enxaquecas e pequenas mazelas da idade. No tempo das águas, cuida das goteiras e acende as palmas, pedindo proteção contra os raios que lambem a cumeeira do casarão e mergulham no quintal, abrindo buracos ao lado da mangueira. Sobrevive à tempestade. Um dia fechará a última janela e se despedirá sozinha do mundo, levando a sua solidão.

imagem: "Mulher com leque",de Amadeo Modigliani
Nota- Poderá encontrar mais textos do autor neste blog aqui

4 comentários:

  1. Gostei muito do texto. Amigo talentoso, esse, Júlia!

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  2. Ele é muito bom, Ana. Vou enviar-te em PVT coisas dele.

    beijo

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  3. Júlia,
    saiba que foi o melhor presente de aniversário que recebi, figurando hoje no seu blog, com sua bondosa homenagem.
    Agradeço de coração, Júlia, e saiba que a sua poesia também está entre os meus gostares. Sensibilizado com o carinho. O meu querer bem, extensivo aos seus amigos e leitores. Abraços, Paulo Celso

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  4. Paulo, que os seus sonhos se realizem todos e que não se esqueça de os sonhar.

    abraço de Bom Aniversário!

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