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domingo, 22 de setembro de 2013

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?


Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus?
O medo me domina.
 
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Paulo Plínio Abreu

terça-feira, 9 de abril de 2013

O único no mundo






- Faz muito frio pra você, aqui fora?
- Não, leve-me por favor até ao centro da praça….De noite, no sonho, vimos uma árvore como aquela lá, aquela perto do centro.
- Vimos?
- Sim. Você, e eu, e todos. Estava bem à vista.
- Que sonho era?
- O sonho da noite.
- Que queres dizer com isso?
- A gente tem um sonho, todas as noites. E as vezes mais de um, não é assim?
- Sim.
- E no sonho da noite havia uma árvore como essa, e um dos galhos estava carregado de frutas. Mas não mais do que um galho.
- Escute, senhor Ramirez, a gente tem sonhos enquanto dorm
e.
Mas cada um sonha sozinho. É coisa particular, privada.
- Mas você não viu essa árvore de noite, a de galho diferente?
- Não, não a vi.
- Todas as pessoas a viram.
- Ninguém a viu. Você sozinho a viu. O único no mundo.
- Por quê?

- Porque é assim: Quem sonha está completamente sozinho.

Manuel Puig, in Maldición Eterna a Quien Lea Estas Páginas




sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Tempo


VICTOR BREGEDA - Past, Present, and Future 
Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstrata. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.
Jorge Luís Borges (1899-1986),
in “Ensaio: O Tempo”

domingo, 16 de setembro de 2012

Só assim será poema



Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Hélia Correia

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Santo Agostinho

“Há atracção num corpo belo, no ouro, na prata e em coisas similares. A sintonia da carne com o que toca é importante para o tacto; da mesma forma, os outros sentidos são estimulados pelo objecto. Mesmo as honras do mundo e o poder de dominar têm sua dignidade, ainda que proveniente do desejo de vingança. Todavia, para conseguir tudo isso não é preciso afastar-se de ti, Senhor, nem desviar-se de tua lei. A vida deste mundo tem seu fascínio, tecido pelo liame que cria com todas as pequenas coisas belas”.
Santo Agostinho (354-430)
 

Ill-Matched Lovers, by Quentin Massys

domingo, 8 de julho de 2012

"Eu, Rosie"


Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte.
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes

A ponte que nos une - é estar ausentes.


Reinaldo Ferreira 
Moçambique (1922-1959)
imagem: "The poet's Garden de V. Van Gogh, 1988

quinta-feira, 21 de junho de 2012

mas



o que se me implora é o vento mas
que esqueci; não por ser meu mas
por eu o poder fazer chegar mas
aos cabelos de quem o conheceu mas
por mediunidade de corpos, embaraços, expulsões, mas
de mim ninguém necessita mas
apenas do eolismo que me sai das extremidades ou da boca mas
pudessem calar-me e ficarem com o vento mas
sem saberem que eu próprio queria o vento mas
sem mim.


Alberto Augusto Miranda, in "A Poesia de Yvonne M.
, Alentejo, 1988

terça-feira, 19 de junho de 2012

recado


"Havia um muro alto entre nossas casas. Difícil mandar recado para ela. Não havia e-mail. O pai era uma onça. A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por um cordão E pinchava a pedra no quintal da casa dela. Se a namorada respondesse pela mesma pedra Era uma glória! Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira E então era agonia. No tempo da onça era assim."

  manoel de barros

domingo, 17 de junho de 2012

Amar é...




"Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar”

Rubem Alves