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Sábado, 2 de Junho de 2012

da sabedoria

A história é muito simples
você nasce
contempla atribulado
o vermelho azul do céu
o pássaro que emigra
o primitivo besouro
que seu sapato esmagará
valente

você sofre
reclama por comida
e por costume
por obrigação
chora limpo de culpas
extenuado
até que o sono o desmorone

você ama
se transfigura e ama
por uma eternidade tão provisória
que até o orgulho se torna terno
e o coração profético
se converte em escombros

você aprende
e usa o aprendido
para tornar-se lentamente sábio
para saber que no fim o mundo é isto
em seu melhor momento uma nostalgia
em seu pior momento um desamparo

e sempre sempre
uma confusão

então

você morre.

Mario Benedetti (1920-2009)

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
Trad. Alberto Augusto Miranda

Terça-feira, 15 de Maio de 2012

Jornada da Alma



Tradução de versos da música "Tumbalalaika",
tema de Sabina Spielrein no filme “Jornada da Alma".


Tolo rapaz, por que ainda pergunta?
É a pedra que cresce, que cresce sem chuva.
É o amor que pode incendiar por anos.
É o coração que pode chorar sem lágrimas


No filme de Faenza, o centro é Sabina. Para além de sua relação com Jung, está o seu desenvolvimento como cientista e a perseguição que sofreu do nazismo.Dez anos depois, David Cronenberg, retoma o tema com Um método Perigoso,onde a história de Sabina se perde, dando primazia ao relacionamento entre Jung e Freud.



Domingo, 22 de Abril de 2012



"It's four in the morning, the end of december
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on clinton street all through the evening.

I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record.

Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?

Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
Youd been to the station to meet every train
And you came home without Lili Marlene

And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife.

Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see Jane's awake --

She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.

If you ever come by here, for Jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.

Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.

And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear

- Sincerely, L. Cohen"

Terça-feira, 10 de Abril de 2012

As almas desencontradas

Deram-me um corpo, só um!
Para suportar calado
Tantas almas desunidas
Que esbarram umas nas outras,
De tantas idades diversas;
Uma nasceu muito antes
De eu aparecer no mundo,
Outra nasceu com este corpo,
Outra está nascendo agora,
Há outras, nem sei direito,
São minhas filhas naturais,
Deliram dentro de mim,
Querem mudar de lugar,
Cada uma quer uma coisa,
Nunca mais tenho sossego.
Ó Deus, se existis, juntai
Minhas almas desencontradas.

Murilo Mendes (1901-1975)

Segunda-feira, 2 de Abril de 2012

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

Albano Martins
 Este postal vai para aqui

Sábado, 17 de Março de 2012

Dual

Só temos consciência do belo,
Quando conhecemos o feio.
Só temos consciência do bom,
Quando conhecemos o mau.
Portanto, o Ser e o Existir,
Se engendram mutuamente.
O fácil e o difícil se complementam.
O grande e o pequeno são complementares.
O alto e o baixo formam um todo.
O som e o silêncio formam a harmonia.
O passado e o futuro geram o tempo.
Eis porque o sábio age
Pelo não agir,
E ensina sem falar,
Aceita tudo que lhe acontece
Produz tudo e não fica com nada.
O sábio tudo realiza e nada considera seu
Tudo faz – e não se apega à sua obra
Não se prende aos frutos da sua actividade
Termina a sua obra
E está sempre no princípio
E por isto a sua obra prospera.

Lao-Tsé (1324 a.C. - 1408 a.C.)

Pretextos para fugir do real


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A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar

Por isso fecho os olhos

(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)

Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio

Experimento um silêncio

Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

Assobio às pequenas esperanças
Que vêm lamber-me os dedos

Perco-me no teu retrato
Horas seguidas

E ao trote do ciúme deito contas
Deito contas à vida.

Alexandre O’Neill, in “Tomai lá do O'Neill” , Mem Martins , Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 1986

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

Muda de Vida ou Muda de Poema


Um poema não é uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almoço. A vida de uma pessoa não tem material semelhante a nada que conheças. Existir é feito de peças impossíveis de copiar. E a poesia não entra nesse material único - a vida de uma pessoa - como o avião no ar ou o acidente do avião na terra dura. Um poema não é manso nem meigo, não é mau nem ilegal. 
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema. 

Gonçalo M. Tavares, in 'A Perna Esquerda de Paris'


 René Magritte,  La robe du soir